Desde a criação da república, o Brasil almeja uma educação compatível com as aspirações de seus ideais. Foi, desde então, cultivado o desejo de se criar um plano nacional para a educação, no qual as novas demandas deste país republicano pudessem ser atendidas. Precisávamos de técnicos, juristas, médicos e outros recursos humanos com um padrão mínimo de formação cultural e intelectual para manter, desenvolver e aprimorar a recém república instalada.
Mas somente a partir de 1932, através do Manifesto dos Pioneiros da Educação, que um grupo da elite intelectual, 25 homens e mulheres, propuseram um plano de educação de grande alcance e de vastas proporções e que reconstruiria a educação brasileira num sentido unitário e com bases científicas. A partir disso, até a Constituição Brasileira de 1934 se dobrou ao tema e contemplou em seu texto que cabia à União a elaboração, a execução, a coordenação e a fiscalização de um plano nacional de educação, através do seu artigo 150.
Somente em 1962, surgiu de fato o primeiro Plano Nacional de Educação, elaborado já na vigência da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961. Desde então, vários planos, leis e recomendações foram propostas e homologadas pelo governo até chegarmos as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei nº 9.394, de 1996, onde determina nos artigos 9º e 87, respectivamente, que cabe à União, a
elaboração do Plano, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, e institui a Década da Educação.
Bem, a partir daí começa a minha história! Em 1997, após finalizar minha licenciatura plena em ciências biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e já sob as exigências da nova lei da educação, prestei concurso para professor do estado do Rio de Janeiro, onde atuo até hoje e, desde 2010, dirijo uma escola em Ramos. Durante todo esse período, como professor e atualmente como diretor, venho detectando que há muito o que se reformar em nossa conduta educacional. Começando pela descontaminação da famosa "agenda política" que insiste ser priorizada no planejamento, se é que isso de fato já existiu, e principalmente na execução das leis e dos tais Planos de Educação! Depois, deveríamos encarar os fatos de frente, sem demagogias pedagógicas e livres do assistencialismo populista de que nossos homens públicos são incondicionalmente viciados.
Já desperdiçamos muito tempo e dinheiro, sem falar nas gerações após gerações de pessoas desperdiçadas, em Planos e em Leis que são elaborados e "executados" apenas ou prioritariamente para aparecer bem na montra eleitoral. A educação é, em via de regra, tratada sempre como mais um produto de propaganda e não como uma estratégia de nação.
Um exemplo recente dessa irresponsabilidade educacional é o atual plano de metas e de seu respectivo traçado gerencial proposto ou melhor, imposto pela Secretaria de Estado de Educação, na personificação de seu atual secretário, sr. Wilson Risolia Rodrigues, um economista de carreira que, dentre outros trabalhos e cargos, já foi diretor responsável pela gestão de recursos de terceiros da Caixa Econômica Federal, bem na época em que vários investidores processaram a CEF por ter o seu dinheiro aplicado nos fundos do banco Santos, já em conspícuas dificuldades financeiras. Então, como ia dizendo, o atual secretário de educação do estado do Rio de Janeiro, sob encomenda do atual governador Sérgio cabral, elaborou um plano de metas e de gerenciamento para a rede estadual de ensino em que as escolas passarão por profundas avaliações e deverão cumprir, em macérrimos prazos, metas estabelecidas a partir do calor das últimas avaliações do IDEB, que impôs ao ensino médio do estado a penúltima colocação em termos de qualidade.
Tenho a forte impressão que os Pioneiros de 32 estão no momento se revirando em seus respectivos túmulos diante dessa erupção equivocada da atual Secretaria de Estado de educação do Rio de Janeiro. Nada contra a elaboração de um plano de metas de altas expectativas para a educação fluminense, mas fazer isso a toque de caixa, na transpiração passional dos últimos resultados do IDEB e sem antes fazer um estudo sério e detalhado das circunstâncias reais que nos levaram a esse patamar parece, e é, mais uma vez puro frenesi político. Mais uma vez a agenda política atropela o bom senso e a capacidade de planejamento institucional.
Só uma dúvida que teima em não se calar, alguém parou para avaliar o porquê de vários abandonos e vários pedidos de licenças e de exonerações por parte dos professores do estado? E aí, quem se responsabiliza por esse verdadeiro êxodo de cérebros de nossas salas de aula? Ouço sempre falar acerca da evasão escolar e da responsabilidade das unidades escolares em relação a isso. Mas alguém já se mancou de quem é a responsabilidade pela evasão escolar dos bons profissionais que, desmotivados e desprestigiados, migram da sala de aula de uma unidade escolar do estado para outros setores do mercado, inclusive para outras unidades de ensino público, como municípios e escolas privadas, por exemplo?
E aí, há algum plano de metas para motivar os professores e para seduzir os jovens talentos para se tornarem professores do estado? Porque, se há um jovem talento hoje na universidade, duvido que ele seja burro o suficiente para almejar uma carreira como professor do estado do Rio de Janeiro!
Até quando a educação será vítima de planos, leis e metas que não têm a menor vocação para resolver os seus reais problemas? Sofremos de severa abstinência de bom senso e de profundo autismo gerencial, exigimos o que não podemos e desperdiçamos o que potencialmente conquistaríamos. Nossa! Quanta burrice!
Espaço democrático onde a análise, a crítica, o palpite e a opinião de todos serão sempre bem vindos. Sempre tentando respeitar o bom senso e o convívio coletivo pacífico, sem sectarismos ou intransigências, mas sempre com cordialidade e tolerância inerentes à harmonia social. Inteligência e bom senso são o alicerce de tudo!
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sexta-feira, 15 de abril de 2011
sábado, 13 de novembro de 2010
EuNEMorto!
Sorte minha que sou de outra geração, aquela que não precisava fazer, com exceção do vestibular, SAEBs, ENEMs, ENADEs ou quaisquer outras bizarrices estatais com a presunção de avaliar aquilo que todos já sabemos, inclusive o próprio governo, de que a educação oferecida pelo nosso Estado é uma sânie!
Não sou contra avaliar a qualidade educacional, sobretudo a da educação pública. Mas, justamente quando se avalia a proficiência do uso de provas escritas, ou pelo menos há uma tendência de revê-las como principal instrumento de aferição, o Estado usa e abusa desse recurso, nadando contra a maré das recentes tendências. Tudo bem! Nem sempre uma moda se afirma. Afinal, modas são para serem ultrapassadas e descartadas mesmo. Todavia, há controvérsia!
O que não parece haver controvérsia é quanto à ineficiência e à irresponsabilidade com que o Estado trata a educação, seja ela pública ou privada, seja ela fundamental, média ou superior. Aliás, educação superior soa meio estranho, após o ensino médio, o cidadão já deveria ser considerado razoavelmente educado, pelo menos para gozar de plena dignidade cidadã. A graduação universitária deveria ser opcional, isto é, encarada como uma opção de aprimoramento profissional, cultural ou tecnológico.
Então, a mais recente e exemplar mostra dessa desastrosa administração da educação é a celeuma causada pela logística catastrófica do ENEM 2010. Não convém agora, criticar ou apontar tudo que houve de errado, ou se a culpa é do MEC, do INEP, do CESPE, da CESGRANRIO ou do presidente da república. Parece até que o Ministro Fernando Haddad vai ser fritado em praça pública, logo Ele, que estava cotadíssimo para continuar na pasta do novo governo do PT. Mas, alguém tem que pagar o pato, e o Sistema sempre arruma algum culpado imediato para a opinião pública se banhar do seu sangue e se acomodar em sua burocrática e ineficiente ignorância.
O ENEM até poderia ser eficiente, mas a quem realmente isso interessaria? O problema vem de além do ENEM, e isso não parece ter lá muita importância agora. Melhor é colocar nariz de palhaço e viver no conto de fadas, de que só o ENEM é culpado das mazelas educacionais do nosso Estado, ou pelo menos um dos principais. Não é! E os estudantes nem precisavam colocar nariz de palhaço para mostrarem isso, era só fazerem o que fazem diariamente quando vão à escola, vestirem os seus respectivos uniformes escolares e saírem por aí, com os seus Rio Cards e na expectativa de esmolas para as suas famílias, via Bolsa isso ou aquilo. Os jovens alunos dessa farsa, denominada escola que nos submetem, já são tratados como palhaços cotidianamente, com ou sem ENEM.
Ensino básico, fundamental e médio, em dois, três ou até em quatro turnos; ensino noturno (ir) regular ao invés de profissionalizante; priorizar uniformes, inclusão digital, projetos descontínuos, por exemplo, ao invés de investir em programas que priorizem a leitura, a interpretação e a produção literária, a real alfabetização lógica e numérica, o incentivo, o desenvolvimento e o aprimoramento artístico e motor da criança e do adolescente, além é claro, o investimento no capital humano que viabilizaria tudo isso, o professor. Tudo isso sim, seria um bom começo de discussão sobre a qualidade de nossa educação. Nunca vi, li ou ouvi falar num projeto, sério e efetivo, que priorize o profissional de educação, sobretudo o professor, o sempre "vilão" ou "vítima", mas nunca o alvo de uma política que o enfatize como sujeito fundamental para quaisquer aspirações de sucesso em qualidade educacional.
Ora! É fácil elencar o ENEM e seus respectivos atores como vilões, mas lavar a ferida e averiguar a gravidade da chaga, aí ninguém parece estar realmente disposto. Daí, continuemos vestindo os nossos alunos de palhaços diariamente, com seus respectivos uniformes, e distribuindo "algodão doce social", para que todos se mantenham matriculados e servindo de garotos propagandas dessa palhaçada farsante! Depois criticam o pobre Tiririca e seu suposto analfabetismo. Quem, aqui em terra brasilis, tem moral pra isso?
O ENEM, como na matéria da revista Época (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI187534-15228,00.html), levou "bomba" pelo segundo ano consecutivo, mas ele só está sendo coerente com o padrão de educação que nos disponibilizam, uma educação de bomba e que nos reserva, todos juntos, a levarmos sempre bomba, de um modo ou de outro!
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